Dádiva Presente

Você não está mais no passado, tampouco está no futuro. Desfrute, pois, do hoje que lhe foi concedido; não sem razão ele se chama presente.

Arcano Amoris II

Os homens confundem amor com desejo, pois o desejo lhes é familiar; o amor, porém, é-lhes tão estranho e vasto quanto o mar.

— Contos de Ra'Liel

Arcano Amoris I

Vós falais do amor como quem descreve a cor do mar; conheceis-lhe a aparência, mas não o coração ocultado e sem jamais o haver tocado.

 Contos de Ra'Liel

Vanitas

Muitos se enchem na própria imagem que acabam perdidos na própria vaidade.

Corrupção dos Tempos

Vivemos em uma era na qual o mal rompe a aurora, e já se assenta a maldade à mesa dos homens.

Penúria Interior

Há almas abundantes em si mesmos, mas padecem de escassez do próprio espírito.

Veredas da Perdição

Se por desejar-te me perco, ide buscar-me nas serpentinas curvas de teu corpo febril.

A Pena

Quando já não couber no coração
o que em pergaminho verte paixão,
e não couber mais nos sonhos
o fel antigo da inspiração,


há de a pena romper silêncio
e dos versos o próprio incêndio.

Hierofante

Pelos corredores velados dos teus desejos, teu mestre oficia nas liturgias ocultas de tu’alma. Nele repousam o mapa do paraíso perdido e a chave dos abismos que ainda não ousaste tocar.

Abyssus

Em teus labirintos, não busques a saída: quanto mais te perdes e mais fundo mergullhas, mais te tornas propriedade do meu domínio.

Ilusões

Muitos carregam na aparência a plenitude, mas habitam a morada da tua própria carência.


A Soma de Mim

Sou o resultado de todas as escolhas que me propus — e das omissões também.

Virtude do Justo

Apega-te ao que é certo e justo; guarda-o no peito, junto ao coração.
Porque a virtude sustenta a vida.

Temeritas

Quem demasiado fala, cedo ou tarde acaba por morder a própria língua.

Discrimen

Aquele que contém o ódio em si preserva a alma; quem o propaga torna-se cúmplice.

Oblatio

Quem abriga o ódio fere a si; quem o espalha condena os outros.

Brevidade

Quem apenas por si e pelos seus se indigna, colherá a solidão.

A Mesa Vazia

Aquele que apenas por si e pelos seus se levanta em ira colherá silêncio à mesa;
pois o coração que não se compadece do próximo caminha para a destruição.

Face do Abismo

O homem prudente é desprezado por guardar discrição; mas o indisciplinado é bem quisto, pois sua boca alardeia e alimenta os ouvidos segundo os desejos dos homens.
Acautela-te, pois, diante dele.

Frutos

É preciso mais do que apenas dizer-se "cristão", pois apenas suas ações revelam o coração.

Acasos

Aproveite cada minuto do seu dia.
Não trace planos — permita-se ao inesperado; descubra a magia dum sorriso verdadeiro.

Inópia

Há de vir o dia em que o homem se veja despojado — e, no despojo, enfim se conheça.

Face do Abismo

O homem que se vê às portas do inferno, já não lhe cobrem véus — e é então que se revela, nu, diante de si mesmo.

Crisopeia

O ouro do pensamento está em sua mutabilidade.

Grilhões Invisíveis

Não é possível progredir acorrentado, seja ao passado ou às ideologias.
A mudança parte de mentes não estagnadas.

Presságio Futuro

Há meios de
antever o futuro:
observam-se os homens.

Eclésios

Não importa o quão longe ou perto se vá, nem o quão rápido ou devagar:
se não contemplares o caminho,
vã será a viagem.

aVer-sos

Eu — eu mesmo:
sou aquele que, de si,
tudo e nada sei.
O que não deveria saber,
ainda assim, sabendo,
de mim quero o bem.

Domínio de Si

Habitue a mente à serenidade, pois quem não a disciplina acaba ferido pela própria boca.

Teatro Distópico

Vivemos entre despertos adormecidos. Pessoas caminham em sonambulismo consciente, num sono de olhos abertos. 
O palco segue montado; o "livre-arbítrio" é o roteiro. Restam as máscaras.

Palco de Máscaras

Há certa sonolência na sociedade: pessoas vagam numa espécie de sonambulismo desperto; em sono profundo, embora de olhos abertos. É o teatro da vida, com o livre-arbítrio ensaiado. Cada personagem com sua máscara.

Becos Cotidiano

As palavras atravessam a rotina como vento leve que sopra entre becos sujos; recolhem sentidos e sentimentos, sem pressa, em meio à vida comum e seus ruídos. Algo simples transforma instantes em pensamento — aquilo que chamamos de ideia.

Dilema

Não há frases, nem poemas
nem teorias, nem teoremas;
nada me farta alma,
já farta de dilemas.

Cedo ou Tarde

Acordei cedo, julgando ser tarde — mas já era tarde para crer que ainda fosse cedo para sonhar.

Vazios de Si:

Vivemos numa era onde as pessoas são tão cheias de razão e tão vazias de si.
O pior, porém, vem daqueles que abdicam da realidade para habitar um mundo imaginário —
por vezes autoritário, talvez confortável para si, mas sempre opressivo para os outros.
Aí não há diálogo: há imposição de vontade. E quando o bom senso deveria prevalecer, voltamos ao início: são tão cheias de “razão” e tão vazias de si.

Pétalas

Até mesmo entre o concreto inerte, vicejam delicadezas.

Que Persiste

Ainda em meio à escuridão, subsistem belezas que, em silêncio, irradiam.

Delicadezas

Que a pressa não nos furte a delicadeza das flores.

Eco Alheio

O que és nasce da tua trajetória — não das vozes alheias que a deturpam.

Sua verdade

Sua história de vida define quem você é — não as fofocas que contam sobre você.

Guarda-te

Não te percas de ti mesmo; nem deixes que extingam o brilho que te habita.

Essências

Nunca se perca da sua essência, e jamais permita que apaguem sua chama.

Em Vós

Sendo amar-vos minha perdição, procurai-me nas sinuosas curvas de vosso riso.

O poeta contra o tempo

Diante da frieza do tempo, que passa sem remorso —
a angústia da finitude.


O poema é estático;
mas o tempo, carrasco, segue em fluxo.


E nessa discrepância entre obra e vida,
tudo escorre pelas linhas do tempo —
e o poeta, impotente, apenas escreve.

O desbotar

Um poema que carrega o próprio cansaço não esbraveja contra o tempo; apenas observa — com a lucidez amarga do seu dissabor.

Às Margens de Mim

Entre o que sinto e o que dele sei, há uma vastidão quase infinita de excentricidades.

A Lavra de Si

Não há plenitude sem que se rasgue o campo e se lavre, em si, o solo fértil da autenticidade.

Raízes do Ser

Vive-se em plenitude quando o ser se assenta no solo fértil da autenticidade.

Ruídos Noturnos

Na calada da noite, vêm barulhos mudos — mas ensurdecedores — que a minha mente produz.

Ecos:

Que não nos tornemos surdos ao clamor do tempo, cegos diante da injustiça,
nem mudos perante a verdade.
Que não sejamos ecos da caverna de Platão, preferindo o conforto das sombras à dor de enxergar.

Jogo favorito I

Cada passo teu ressoa como feitiço, dissolvendo as margens do que sou.
Tento manter-me na escrita — mas as letras tremem, hesitam, falham.
O balanço hipnótico dos teus quadris desarma meu verbo, dispersa minhas rimas.
É um balé blasfemo que me despe da razão.

Jogo favorito II

O balanço hipnótico dos teus quadris invade meus pensamentos, dissolvendo palavras antes mesmo de elas tocarem o papel.
Tento escrever, mas é o pecado do teu andar que desliza por minha mente, roubando-me a razão.

Jogo favorito III

À frente, uma janela — belo contraste com o entardecer. A luz da tarde desenhas-te com reverência. Os raios alaranjados do sol revelam teus contornos, enquanto teu olhar vaga distraído: olhar de quem apenas vive... mas vive como um espetáculo íntimo, só para ti.

Jogo favorito IV

A passos leves, quase sagrados, graciosos e sensuais, teus quadris balançam num compasso lento, dançam num desfile cruel, tão naturalmente erótico que até o silêncio suspira. És a encarnação do feitiço que se derrama em mim.

Jogo favorito V

O contraste daquele sorriso angelical com o desejo quase pagão que tua presença desperta é um tipo de tortura bela, uma poesia coesa, versos atravessados entre presente e devaneio.

Jogo favorito VI

És como uma valsa, uma dança do acasalamento — um jogo perigoso que, majestosamente, sabes jogar.
Mas tua presença é um golpe baixo — e acerta onde o fogo habita.
Minha mão ainda segura a caneta, mas minha escrita já traça versos por entre tuas coxas.

Jogo favorito VII

Meus olhos pousam em tuas pernas desnudas, atrevidamente descobertas.
Tua pele bronzeada, os pelos eriçados — meu desejo arde em labaredas contidas, inflamadas por chamas inconfessas.

Jogo favorito VIII

Escorregas para o meu colo, sentando-te como quem reclama um trono.
— “Fale algo bonito para mim...” — sussurras.
— “Tu és o poema que me arranca a lucidez,” — digo, arfando. Sorris, remexendo devagar.
— “Então, declama-me...” — diz mordendo o lábio.
Uma métrica perfeita, libidinosamente obedecida, sílaba por sílaba, tercetos e quartetos das tuas rimas.

Jogo favorito IX

Sussurras quase inaudível, enquanto arrastas minha mão para teu recôndito paraíso — um jardim de névoas úmidas.
— “Escreva-me com os dedos”, — exiges.
Meu corpo obedece — sou a pena que desliza nas entrelinhas do teu prazer.

Vazios de Si:

Vivemos numa era onde as pessoas são tão cheias de razão e tão vazias de si.
O pior, porém, vem daqueles que abdicam da realidade
para habitar um mundo imaginário —
por vezes autoritário, talvez confortável para si,
mas sempre opressivo para os outros.
Aí não há diálogo: há imposição de vontade.
E quando o bom senso deveria prevalecer,
voltamos ao início:
são tão cheias de “razão”
e tão vazias de si.

Quem trilha só o próprio caminho aprende que a solidão é o preço a pagar.

Estradas prontas

Muitos seguem estradas prontas; poucos têm coragem de encarar o próprio destino.

Caminhos

Há caminhos que não nos levam a lugar algum, e outros que nos levam de volta a nós mesmos.

Paisagem prometida

Nem todo caminho revela a paisagem prometida, mas todo caminho revela o ser que o percorre.

O que sou?

Prefiro ser admirado pelo que escrevo do que pelo que sou, pois nem tudo o que escrevo é o que sou, mas, tudo o que sou, é o que escrevo.

A trilha

O saber não é uma montanha, mas sim uma trilha: jamais se alcança, apenas se caminha.

Desejos íntimos

Atiças-me com sorrisos, desnudas minhas vontades, para ter-te cativa em vossos desejos íntimos e em vossas fantasias que, em silêncio, desabrocham ardentes.

Autenticidade vs. Aprovação

Não precisar corresponder à aprovação alheia nunca é simples, mas ter personalidade é entender que viver para agradar aos outros é deixar de existir para si.

Bocas vazias

É inquietante saber que tantas bocas vazias ainda fazem tanto barulho.

Do Pouco

Porque quero tudo o que o pouco pode me dar,
Não me farto do pouco que ainda tenho, mas
também não me contento com o que ele me traz,
desejo mais daquilo que posso fartar.


É do pouco e com pouco que muito se faz,
Mesmo tão finito, se ao infinito somar,
com o pouco e muito, muito hei de amar,
Porque quero tudo do que o pouco é capaz.

Empatia

Compreender nunca é simples. Mas quando se abre o coração, fica fácil a compreensão.

Passos

Cuida dos teus passos, para que depois não te arrependas dos espinhos que neles terás de carregar.

Ervas daninhas

Não permita que cresçam ervas daninhas onde se cultiva carinho e ternura.

Novas Trilhas

Muitas vezes é preciso correr riscos: seguir certas trilhas e abandonar outras.

Completar

O completar de que falo não é porque algo nos falte, nem porque haja uma peça ausente no quebra-cabeça. O completar de que falo é sobre pele, sobre encaixe, sobre dividir — e jamais subtrair. É encaixe na alma do outro; é dividir risos, os dias, as manhãs, as semanas e os fins de tarde… é dividir a Vida!

Meu silêncio

Meu silêncio é minha meditação: nele desço aos recônditos da mente, para desvendar a origem dos ruídos.

Coração Regente

O amor constrói pontes, ergue castelos e jardins, cultiva flores e frutos de paz, forja reinos onde o coração, outrora vassalo, repousa agora soberano — e, em seu trono, rende lealdade ao próprio mistério que o deu à luz.

Jardim da Mente

Sim, se tem algo que aprendi — e valorizo profundamente — é não permitir que o comportamento dos outros envenene minha mente, adoeça meu estado de espírito ou apodreça minha alma.

Elite do retardo

À elite do retardo em nada importam o povo nem a pátria — senão tão-só os seus interesses;
e, por tais desígnios torpes, vendem o povo como quem troca ouro por cobre vil.

Suspenso

Meu silêncio é como manhãs frias — lentas, demoradas — e, quando me dou conta, já é noite.