O Caminho

Nem todo caminho revela a paisagem prometida, mas todo caminho revela o ser que o percorre.

Lumiar

A mente que se crê sabia fecha-se à luz da sabedoria e ao quarto do tesouro, que só a humildade permite entrar.

O Saber Transitório

No grito, o homem cava seu próprio silêncio; na escuta, constrói sua grandeza.

Incêndio e Silêncios

No contorcer do corpo lascivo, 
o meu pensar divaga disperso
aos lábios que declamam em versos 
versos que rasgam véu paraíso.

Te leio qual livro indiviso
da boca ao umbigo e ventre
d'onde tu pulsas d'as margens quentes
Meus dedos, um ardente aviso

Febril, e entreaberta treme
tua voz arqueja agonia,
e tua boca em versos geme.

Te possuo, em fel fantasia, —
de corpo e verbo se consome,
sem pudor, verso e poesia.

Minha Pequena

Minha menina! Não tocarei tua pele feito brisa — colapsarei teu corpo.

Labirintos

Teu corpo é labirinto: me perco em ti, e nunca acho a saída.

Plenitude

És vazio, aquele que veste-se de soberba; é aprendiz, aquele que se preenche com silêncio atento.

A Corrente do Tempo

É sinal de maturidade reconhecer que o saber de hoje pode não ser mais a sabedoria de amanhã.

Suje(itos)

Todo sujeito está sujeito a "sujeiras" da vida.

Canéca de Café

Numa dessas manhãs, como um dia qualquer.
Enquanto os raios do Sol no horizonte a despertar,
dissipando a neblina soprando-a ao céu. 
Um diazinho frio – a brisa, o orvalho e um café.
Não há lugar melhor para se estar,
se não aqui, apreciando a vida tecer seu véu.
É se esticar e senti-la te abraçar, ganhar cafuné.
Ops! Ouvi, no silêncio de um segundo, alguém falar.
Impressão minha, logo desapareceu ao léu.
Então, voltei à minha caneca de café. 
Talvez tenha sido o canto dos pássaros!
O canto do sabiá era a sonata de Beethoven,
todos os dias no rancho de sapé.
Acordes e canções, agudos e ritmos!
Sons da natureza que os anjos promovem. 
Arte sonora como a patativa sobre o chalé.

No jardim, depois do sereno da noite fria,
as plantas mudam suas texturas e aspectos,
suas cores parecem ter sido retocadas,
pintadas à mão pela noite, doce cortesia.
Uma imensa galeria toda a céu aberto.
Como um quadro, uma obra de arte recém-pintada.
Na cerca de arame farpado se via,
no balançar da teia tomada por orvalho,
Ao ritmo do sabiá, dançava a aranha encantada, 
mas apenas para a gota no fim, derrubar.
Mastigando meu biscoito amanteigado
que acabara de sair de mais uma fornada, 
internamente, dou-me a gargalhar.
Sinto-me tão livre quanto um pássaro: 
Bem-ti-vis, bigodinhos, coleiros e pombos
dentre muitas outras variedades a revoar.
Da nuvem negra de melros sobre o arrozeiro
ao canto dobrado e o fôlego dos pintassilgos.

Os quero-queros com o gado o pasto a disputar.
Os sinos e os mugidos distantes das vacas-leiteiras
ao ruído dos tratores indo aos pastos cuidar. 
As colhedeiras de arroz tremiam o solo ao passar. 
Os gatos, doidos, corriam subindo nas videiras.
O nhambu ao longe vinha piando e piando
que visão linda até no quintal pousar.
As maritacas se assentavam nas goiabeiras 
logo o bando aos poucos ia se multiplicando.

Os patinhos e paturis no lago a se banhar
e o patriarca com seu estilo único de andar.
O beija-flor e seus romances do amanhecer.
Seu, beija aqui, beija acola, logo me inspira.
Era jardim de natureza diante do olhar.
Uma pintura da vida ao coração aquecer.
Assim eram as manhãs da vida caipira.
Na roça, a beleza é o que mais há de se encontrar.