Confidencias III

Contudo: — Poderia eu, senhorita, desfazer os nós do tempo e ofertar-lhe a essência que me habita?
Pois bem sei que estás à espera de que eu diga, com detalhes, todos os efeitos que esta solidão tem causado em mim. 
Ah, mas seria em vão! Pois sou feito penumbra e crepúsculo, de um aço forjado nas chamas de invernos antigos. O que pulsa em mim não se expõe ao olhar fugaz, nem se rende ao toque da curiosidade. Antes, esconde-se nos interstícios da noite, entre as dobras de um lençol de linho, num silêncio ensurdecedor, onde os ecos do passado ainda sussurram suas verdades interditas. Como um dançarino habilidoso, movo-me com a graça de uma valsa pelos intricados passos da vida, sempre um passo à frente, conduzindo a dança das sombras que espreitam nos recantos mais escuros da existência. Mas há uma verdade mais profunda, um segredo que guardo com fervorosa devoção, como um tesouro sagrado oculto nas minhas profundezas. Pois mesmo eu, senhor do meu destino e emoções, encontro-me às vezes à deriva em mares tempestuosos, lutando contra as correntes que ameaçam arrastar-me para o abismo do desconhecido.
Ah, se soubesses, senhorita, das chamas que me aquecem quando o frio se insinua pelos corredores d'alma, das velhas madeiras frias que percorrem este corredor afora, por teus intrínsecos rangidos ao se aquecerem com o baforejar quente da lareira, a desnudar minh'alma a mostrar-lhe os labirintos onde minha mente vaga. Ah, se soubesses o peso que carrego, os segredos que se enroscam em meus pensamentos como ecos de heras antigas, sussurrando com voz tremula em meu ouvido histórias que jamais serão contadas, entenderias por que me resguardo no mistério. São como brasas vivas aprisionadas, memórias incandescentes que atiço como quem reacende um lume esquecido e que, mesmo ocultas, iluminam os subterrâneos do meu ser. Mas guardo-as com zelo, como tesouros afundados nas marés do tempo, selados em baús de ferro que nem as estrelas ousam violar.

— TO BE...