Há uma inquietude ancestral que ronda os que amam — como um sussurro que vem como uma brisa fria, causando desconforto antes mesmo do gesto.
Amar é equilibrar-se à beira do penhasco; é abrir-se à vertigem d'alma, ao risco do indizível, ao veneno doce que fermenta e se fragmenta entre os olhos e o silêncio.
Porque o amor, quando verdadeiro, não se diz sem que se trema. Ele toca onde a razão hesita e onde o espírito, mesmo em sua altivez, se curva ao mistério.
Há no amor um toque simultaneamente sombrio e iluminado, que nos puxa para fora — e, ao mesmo tempo, nos arrasta para dentro, como se estivéssemos sendo desvelados aos poucos pela mão invisível do tempo.
Aquele que, ao falar de seu amor sem se envenenar d’alma, nem se deixa enveredar pela natureza das coisas criadas, guarda em si uma certeza estéril — e perde, sem conhecer, a mais desconcertante das experiências humanas.
Pois o amor que não transforma — e não se transforma —, que não arde nem desfigura, é apenas sombra do que deveria ser.
Um amor que se explica demais torna-se cálculo matemático.
Um amor que não transborda, seca. Ou apodrece no cárcere da contenção.