Teus olhos esmeralda
não merecem des’águas,
que, em pranto e mágoas,
vertes silêncio — em calda.
Não chovas sobre mim,
não os deixes correr,
da mácula do teu ser,
que envenena teu jardim.
Não mateis minha sede,
nem me concedas fé;
pois puro veneno és —
tal dor que me sucede.
Tal luz vem de fora,
nas trevas a fulgir,
a coragem compelir,
d’alma morta d’outrora.
Quase posso sentir,
quando tocas meu rosto,
frio como o encosto —
tenho um rumo a seguir.
Tanta vida há lá fora —
e, cá dentro, nada mais.
Só a prece, só a paz,
que adoece quando choras.
Nada, nada há que consumir.
Tantas flores nesta cripta,
já sem lume, sem escrita —
nada mais em ti possa florir.
Tanta alegria na solidão,
que, em meu pesadelo,
cá dentro, em apelo,
só me alcança a escuridão.
Nem meu sono há de dormir.
D'este segredo, ademais,
que há onze anos portais —
roubam-me todo o sorrir.
Parece-te tão linda,
o que me desatina —
tal sombra não finda.
Tanto há por sentir,
mas nada há, cá dentro,
nem o rumo do advento
em nenhum possas ir.
Não reacendais esperanças,
não toqueis os esquecidos,
pois estes olhos enegrecidos
despertam-me lembranças.
Permita-me seguir.
Não chores sobre mim.
Pois, cá, demônios vis
hão de me consumir.
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Uma Dedicatória... 📖
Aos góticos — luto e alma ferida,
que amam à beira da despedida,
que tocam a morte como canção
e oram prantos em devoção.
A vós, que ouvis o que silencia,
que encontrais beleza na agonia,
e cultivas flores em cripta escura,
onde a dor é arte, e a arte é cura.
Este poema vos pertence, então —
não só lamento, mas invocação:
dança espectral, de dois abismos,
um feito de amor, outro — lirismo.
Que tais palavras, com frio e ardor,
ressoem em vós como antigo amor;
como um calor que, sob o jazigo,
ainda persiste, dormindo contigo.
— Deixo aqui minha dedicatória aos que, este mundo, habitam — belas almas, amantes da poesia.
Foi por este mundo que me prostrei, e pela poesia, palavra me tornei. 📖🌹