Pecado irresistível

Quanto mais me inflamas, mais arde em mim o desejo por ti. Provoca-me até que eu te deguste, te devore como um pecado irresistível.

Graça

Ah, que suave graça seria, ter a leveza de uma alma poeta.
Mirar o mundo por uma janela secreta, e ver tudo em prosa e poesia.

A vida, enfim, se revelaria, em liberdade completa.

Profana Tentação

O lascivo pecado do seu andar desliza pelos labirintos moribundos da minha mente, profanando meus pensamentos.

Dança dos Segredos

No balanço travesso e hipnótico dos seus quadris, um verso impuro, libidinoso, sussurra-me desejos secretos à flor da pele.

Sementes

Meu afeto a semente,
meu carinho a rega;
Cultivo o chão perene,
sorriso que te alegra.

Soturno

Se for amor, não se pode ver!
Se for dor, tão pouco se sente!
Se for sorriso, seja condescendente!
Se for devaneio, como saber?

Ao tomar a vida por viver...
Se for o único meio, a escuridão...
Se for, não poder com o coração.
Se for inferno, amor não pode ser!

Se for inverno transitando a primavera?
Se for... Será devaneio colocar-se contra a dor.
Se for a morte ceifando do mundo todo o amor?
Se for assim tão contrário, o céu me espera!

Se estiver nos bosques a nova esperança?
Se for ponto de vista, solto aos anos?
Se for mortal a oração com enganos?
Se for assim, sirva-se de mim, doce criança.

Se for aquele de onde sopra o vento...
Se for da alma, por que gozo de dores?
Virgem tua imagem, em noites de fulgores,
Banhas minh'alma e a rota tento.

Se for amor, por que mágoa tanto?
Se amas rude o peito, dás à ilusão,
Que fazes o dia um copo de pranto.

O que poderei sem poder?
Se está presa em mim a noite,
Para matar-me soturno o bem-querer.

O que podereis contra o açoite?
Deita-me a lança do perder...
Até que a criança se afoite...

- 10/06/1996


*Poema elaborado com inspiração nas obras de Luís Vaz de Camões.
Trata-se de um projeto escolar desenvolvido há muitos anos.

A Semente

Compartilhar seus sentimentos sem reservas; é plantar no coração das pessoas a semente do amor-próprio, na mesma intensidade do seu afeto.

A tapeçaria da vida

A tapeçaria de uma vida bem vivida é tecida com fios de delicadeza e ousadia.

O Silêncio e o Eco

O futuro, que outrora fora palco de esperanças no avanço da humanidade, promessas e horizonte de progresso, hoje cambaleia à beira de um abismo. O ódio e sua disseminação, sombra crescente, estende-se sobre a razão, sufoca o diálogo, macula a paz.  Como um veneno insidioso, infiltra-se nas frestas da civilidade já fragilizada, erodindo os pilares, alicerces da coexistência pacífica.
As palavras, que deveriam ser pontes, tornaram-se lanças; os homens, que deveriam ser instrumentos de compreensão, veículos de instrução e diálogo, transfiguram-se em arautos da discórdia. Divergências, outrora naturais à condição humana, agora são fagulhas que acendem incêndios, pretextos para "protestos" inflamados, "justificativas" para o confronto incessante.
As plataformas digitais, concebidas como ágoras modernas, templos da troca de ideias, de conexões e relações inter-pessoais, transmutaram-se em arenas de embate onde no anonimato, escondem-se os fomentadores do rancor, propagadores do discurso de ódio, aqueles que destilam preconceito e semeiam a intolerância. O fogo da discórdia, antes restrito a nichos extremistas, alastra-se como labareda indomável e alarmante, alimentado pela desinformação e pelo propósito velado dos "desinformantes" que lucram com a polarização.
O ódio não chega com estrondo; rasteja. Não se impõe de súbito; infiltra-se. Como um parasita silencioso, nas brechas da ignorância e da intolerância. Veste-se de "minha justiça", camufla-se de "indignação" legítima, disfarça-se de identidade. No entanto, sua essência é corrosiva—dilacera a paz, fere a convivência, perverte os princípios sobre os quais a moral e a fé se erguem. E, paradoxalmente, muitos que proferem seu nome ainda se dizem cristãos, tementes a Deus.
Silencioso e contínuo, o ódio rasteja-se por entre palavras e atitudes, serpenteando entre discursos inflamados e pensamentos contaminados, se nutre da polarização e se fortalece com a manipulação de levianas teorias criadas para servir aos interesses próprios. Constrói muralhas intransponíveis entre os homens, sustenta-se na mentira travestida de verdade, no medo e desinformação, cresce na ignorância que se acredita esclarecida. Até que se torne incêndio voraz, até que consuma tudo ao redor, tornando-se quase impossível de ser apagado.
Se este curso não for interrompido, e a escalada não for contida, o que restará? Um mundo reduzido a cinzas, um mosaico fragmentado de ruínas onde a desconfiança suplanta o respeito, onde as vozes dos outros são imediatamente silenciadas por não coincidir com a própria. A história já nos mostrou, inúmeras vezes, os perigos desse caminho. Ignorar suas advertências é condenar-se a revivê-la, num ciclo de erros com consequências devastadoras que apenas se repete, mas nunca ensina.
Lideranças, que deveriam conduzir, guiar e moderar, ser o exemplo, por vezes, são os que inflamam as paixões mais vis, aqueles que incitam à violência e se alimentam do caos, buscando no caos a validação de seus próprios interesses. Líderes que, em vez de serem faróis, tornam-se tochas de fogo ardente, incendiando os que os seguem. E as massas, vulneráveis ao encanto das palavras fáceis e promessas envenenadas, retórica simplista, abraçam ideologias extremistas, marchando cegamente rumo ao precipício da intolerância.

Este mundo, o único que temos, deveria ser lar de todos e para todos—sem distinção de cor, origem, crença ou nação (alinhados como é os ensinamentos de Deus). Mas a intolerância, a ganância o transforma em uma "guerra fria", onde a diversidade é vista como ameaça, onde a diferença se torna razão para perseguição. 
A compaixão e a empatia, outrora estrelas-guia da humanidade, valores fundamentais, hoje são lançadas ao esquecimento, enquanto o ódio pavimenta o caminho que leva algumas "pessoas" de desejos insaciáveis ao poder absoluto de controle e manipulação. O futuro, que deveria ser luminoso, promissor, inspirador, veste-se de sombras. Um futuro que poderia ser grandioso, ameaça desmoronar, ruir, incerto e sombrio sob o peso do ódio. A humanidade, em sua cegueira, se aparta, se estilhaça, se fragmenta, caminhando sobre um fio tênue entre o existir e o perecer.
É imperativo que se restabeleça a importância do diálogo, que se resgate o seu valor, que a empatia seja reerguida, que respeito às diferenças seja compreendido, não temido, pois somente assim poderemos evitar que o ódio se torne o princípio dominante de nossa era.
Antes que a última centelha se extinga, antes que o silêncio da indiferença e a exaltação do conflito consumam o que ainda resta de esperança.
Pois se nada for feito, restará apenas o silêncio e o eco ensurdecedor da discórdia.




Artigo - Prosa Poética. 

"Uma reflexão sobre a crescente disseminação do ódio na sociedade contemporânea e seus impactos na convivência humana. Uma análise crítica sobre como o ódio, impulsionado pela desinformação, pela polarização e pela manipulação, se alastra silenciosamente, corroendo valores essenciais da sociedade."

Confidencias III

Contudo: — Poderia eu, senhorita, desfazer os nós do tempo e ofertar-lhe a essência que me habita?
Pois bem sei que estás à espera de que eu diga, com detalhes, todos os efeitos que esta solidão tem causado em mim. 
Ah, mas seria em vão! Pois sou feito penumbra e crepúsculo, de um aço forjado nas chamas de invernos antigos. O que pulsa em mim não se expõe ao olhar fugaz, nem se rende ao toque da curiosidade. Antes, esconde-se nos interstícios da noite, entre as dobras de um lençol de linho, num silêncio ensurdecedor, onde os ecos do passado ainda sussurram suas verdades interditas. Como um dançarino habilidoso, movo-me com a graça de uma valsa pelos intricados passos da vida, sempre um passo à frente, conduzindo a dança das sombras que espreitam nos recantos mais escuros da existência. Mas há uma verdade mais profunda, um segredo que guardo com fervorosa devoção, como um tesouro sagrado oculto nas minhas profundezas. Pois mesmo eu, senhor do meu destino e emoções, encontro-me às vezes à deriva em mares tempestuosos, lutando contra as correntes que ameaçam arrastar-me para o abismo do desconhecido.
Ah, se soubesses, senhorita, das chamas que me aquecem quando o frio se insinua pelos corredores d'alma, das velhas madeiras frias que percorrem este corredor afora, por teus intrínsecos rangidos ao se aquecerem com o baforejar quente da lareira, a desnudar minh'alma a mostrar-lhe os labirintos onde minha mente vaga. Ah, se soubesses o peso que carrego, os segredos que se enroscam em meus pensamentos como ecos de heras antigas, sussurrando com voz tremula em meu ouvido histórias que jamais serão contadas, entenderias por que me resguardo no mistério. São como brasas vivas aprisionadas, memórias incandescentes que atiço como quem reacende um lume esquecido e que, mesmo ocultas, iluminam os subterrâneos do meu ser. Mas guardo-as com zelo, como tesouros afundados nas marés do tempo, selados em baús de ferro que nem as estrelas ousam violar.

— TO BE...