Prefácio dos Deuses

A dama nívea, sob umbra prece, ora.
Um cântico aos velhos Deuses
Sob o seu pranto, o legado umbra aflora,
com um apetite que não sacia
Consumida em pecado de outrora.

Da antiga profecia, eis a proa
O antigo Deus há de tomar forma
Da mácula de alvor que ecoa,
A vergonha de sua graça esquiva.
Ecoa das ruínas em língua arcaicozoa.

A seu reino a noite sempiterna ativa,
sob o véu de breu que tudo cobre.
Um ancestral tornar-se-á carne viva,
com cheiro acre de terra e sangue pobre.

A dama nívea, sob umbra prece, ora.
Cantiga dos Deuses celestiais.
No seu pranto, o legado umbra aflora,
Qual trevas no âmago dos olhos,
Torna turva a vista, qual névoa que devora.

Tal negror de seus olhos caíra,
Que lhe maculam o vestido alvíssimo.
A profecia dos Deuses já se cumprira.
Sob sua formosura, destoa o desespero.
O eco dos antigos hinos ressurgira.

Ainda que finde por amor infame,
um laço de dor e volúpia impura.
Ungirá com prece o berço do infante,
sob a névoa fria que perdura.

Embora as sombras o mundo sele,
Lavar-lhe a alma em sangue e culpa
Saudando o ser das rúnicas delecele. *
Vindo à terra a noite oculta.

Vagando de seu lar, tão apartada,
A dama nívea, jaz sob sangue e pecado.
Sua alma sobre o abismo jaz deitada.
Donzela nívea, sob umbra orando ao lado.

No encanto de seus olhos de cristal,
Ao menos santa sua esperança é alçada.
Cantiga dos Deuses de outrora, afinal.
Em seu último pranto, a escuridão selada.





* “delecele” = palavra criada com sonoridade de “deleite + cele”; pode ser interpretada como um encantamento selador ou um cântico oculto.

Canção do Bardo - O Paladino e o Reino do Norte I-XIV

Sou um cavaleiro negro andante
Por trevas, vales e tormenta forte.
Um Paladino, buscando adiante,
O Reino florido, o vale do norte.

Jazo exausto e oscilante,
Deito-me aos braços desta sorte.
Rompo o encanto — paladino errante,
Sob névoa, tenho visto a morte.

Eis-me aqui, presente,
Sob dia e noite, viajante.
Sigo firme e persistente,
Até alçar meu fado distante.

Planeta Parla(mente)

Prefácio:
Crônica rimada de um mundo cheio de ecos.
Planeta Parla(mente) não é um lugar distante no cosmos.
É aqui — bem debaixo dos nossos narizes, microfones e promessas de campanha.

Neste mundo em que se fala mais do que se escuta, onde discursos fazem piruetas e verdades são editadas antes da vírgula — nasce este "cordel urbano", esta crônica em rima: um espelho torto da política global e local, com o sarcasmo de quem já viu demasiada peça.  Aqui, o que se oferece são ecos: das cúpulas dos planetários, das propagandas sorridentes.
Circo sem risada, bandeiras sem vento — murchas como a esperança deste que vos dita — e palcos cheios de atores que esqueceram que o povo não é figurante.
Planeta Parla(mente) é um convite ao riso amargo, à reflexão rimada, ao incômodo necessário.
Porque, no fim das contas, quem aplaude ainda é o povo — entre a esperança e o desespero.

Leia com ironia.
Mas também com os olhos bem abertos.
Talvez você reconheça mais do que gostaria.

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Planeta Parla(mente):

No planeta parlamento,
de reunião (quase) todo dia:
debates sem sentido,
e o senso... virou folia.

Presidentes fazem selfie,
enquanto o povo nem protesta.
Gritam, a paz que se fie,
mas compram bomba na festa.

Tem ditador de gravata,
e palhaço sem graça.
Muita promessa e bravata,
mas vendem até a praça.

Na cúpula dos planetas,
enquanto a ONU serve café...
Quem manda são os patetas,
sentados no banco, em ré.

A Terra gira cansada,
com os ricos no controle,
um circo sem risada,
mas o importante é o rolê.

Apertos de mãos na telinha,
nos bastidores, facada.
A verdade nas entrelinhas...
É que não passa de cilada.

Na novela bucolista,
o pobre no sofá da sala.
A verdade dá entrevista...
Mas cortam antes da fala.

Política e o teatro amiúde,
com mil atos, sem roteiro.
No fim, quem sempre aplaude
é o povo... no desespero.


A Política

...onde a palavra é moeda falsa, e o povo, o troco esquecido. 

Silente

A fala é tempestade e o escutar, um jardim esquecido — onde floresce a ausência do sentido.

Café da Manhã — Ele

1. — Entrada
ele
entra
entre
um
sorriso
discreto

2. — Olhares
xícara
vapor
olhar
perscruta
lento
desejo

3. — Inusitado
leve
brisa
esparsa
aroma
pela
porta

4. — Atmosfera
ele
respira
o
ar
de
ela

5. — Sutileza
cheiro
doce
perfume
acende
curiosidade
viva

6. — Destino
olhares
cruzam-se
e
o
destino
sela

7. — Invisível
sorriso
tímido
responde
aos
olhos
tagarelas

8. — Enlace
olhos
enredam-se
silêncio
profundo
sem
retorno

9. — Rompimento
um
leve
"oi"
voa
entre
medo

10. — Coração
esperança
desperta
mente
turbilhão
alerta
coração



☕ Café da Manhã — Ele
história contada em aldravias

Café da Manhã — Ela

1. — Chegada
chuva
forte
fria
molha
minha
alma

2. — Instante
café
quente
mãos
tremem
porta
abre

3. — Susto
um
susto
busca
o
olhar
transido

4. — Presença
ali
suspenso
no
ar
um
estranho

5. — Perfume
aroma
sutil
inusitado
invade
minhas
memórias

6. — Olhares
olhares
tocam-se
sem
palavras
tempo
para

7. — Sorriso
hesito
escondo-me
na
boca
curva
calada

8. — Mente
vagueia
em
mil
palavras
não
ditas

9. — Voz
um
"oi"
quebrado
flutua
tímido
incerto

10. — Coração
coração
vivo
pulsa
assustado
esperando
resposta



☕ Café da Manhã — Ela
história contada em aldravias

Depois do Café da Manhã: – Ele

No vapor daquela xícara,
Com o leite a esfriar,
O rosto dela a esmorecer,
Na meia luz do lugar.
Tão sereno, tão distante,
Algo a entorpecer.

Ele respira o ar sem pressa,
Tentando não se desfazer.
O cheiro do pão na chapa,
Doce, a envolvê-lo.
Um "oi" preso na garganta
Lutava por se soltar,
Mas o medo, velho amigo,
Insistia em calá-lo.
Fez do riso seu abrigo
Para tentar se aproximar.

Ela olhou — ele a viu, juro!
Raio de sol se fez a brilhar
No seu cabelo solto,
Os pensamentos a embriagar.
E o perfume o invadia
O deixou quase etéreo.
Foi ali que o coração
Desandou num tom sincero.

Voltou para casa no silêncio,
Com saudade do que foi.
Um instante entre mil horas,
Um segundo, e nada depois...
Ficou preso no começo,
No calor daquele "oi".



☕ Poema: Depois do Café da Manhã: – Ele
História contada em Poema, continuação das aldravias.

Depois do Café da Manhã: – Ela

Era chuva sobre a alma,
Era tarde ou manhã.
Ela ali estava por impulso,
Carrega dor na mesma lã.
A fumaça do café
Toda em bruma, lhe enganã.
Então soa o sino
som e aroma temporã. 

Ele ali, tão visível...
Sem pinta de galã.
Entre o fechar da porta
Eles se viram — e mais que fã.
No copo a tilintar,
O burburinho do pão,
Ela sentiu o ar se embarcar
De um perfume que era novo,
Não na essência do cheiro,
Mas no jeito de ser povo.
O olhar dele era lento,
Feito vinho antes do estorvo.

Ficou muda, meio tonta,
Sem saber o que dizer.
Um sorriso quis nascer,
Mas morreu no se perder.
Hesitou entre o encanto
E o medo de se envolver.
A luz fraca da janela
No balcão a esvanecer.

Soltou um “oi” disfarçado,
E ele a respondeu.
Na xícara entre os dois
Um destino se acendeu.
Um coração na espuma do café
Com um adeus a predizer.
Ela foge de si tão cedo,
Que até hoje a se esconder.



☕ Poema: Depois do Café da Manhã: – Ela
História contada em Poema, continuação das aldravias.

Epílogo (uníssono)

Do café só restam marcas
nas bordas de um coração,
duas bocas sem coragem,
dois desejos sem razão.
Mas quem cruza o mesmo sonho
já conhece a direção...



Epílogo (uníssono)  
Poema: Depois do Café da Manhã ☕