Mas há um sutil encanto no que não se revela por completo, um fascínio inerente ao incompleto. Um homem desprovido de enigma assemelha-se a um livro de páginas em branco, uma estrela sem brilho, um inverno tépido, sem a mordida gélida que nos lembra a sua natureza; uma noite órfã de luar, sem a pálida poesia que acalma a escuridão. E eu, cuja natureza jamais se inclinou ao fácil, fui moldado pelas agruras da existência. Se em teu olhar reside a convicção de me conhecer por inteiro, resides em um equívoco encantador. O que percebes são meros fragmentos dispersos, ecos distorcidos em um espelho multifacetado, preservando minhas dualidades intrínsecas.
Contudo, há noites – ah, as noites! – tais como esta, em que me indago se seria mais fácil render-me ao anseio fugaz de permitir, por uma única vez, que alguém adentre os meus domínios recônditos e interditos. Mas o receio é grilhão de carne, um algoz implacável, que transforma nossa vulnerabilidade em dureza inflexível, condenando-nos à fria imobilidade escultural. E eu, sou cativo da minha própria cidadela interior, com baluartes erguidos ao longo de incontáveis silêncios e artifícios
Por isso, habito este entremeio de penumbra e o crepúsculo, entre a chama interior e mistérios velados, um enigma cuja resposta reside nos imprevisíveis caminhos do destino.
E tu, senhorita? O que vês quando me fitas com estes olhos que tentam perscrutar na profundidade da minh'alma? Serias tu uma sonhadora, uma buscadora de verdades em meio aos sonhos, ou apenas mais um olhar curioso espiando pelas frestas da minha noite, olhos que tateiam o indizível, buscas acaso um vislumbre da verdade, ou apenas te perdes, fascinada, na ilusão. Serias tu apenas mais uma estrela curiosa espiando por entre as brechas dos meus segredos noturnos, das minhas confidências?
— TO BE...