A vida é tecelã de equívocos — e eu, seu artesão. Foi preciso todo esse tempo, e silêncio, para que eu enfim soubesse: éramos felizes, e um só, naquela alegria feita de coisas simples e eternas em sua sutileza. O medo, esse velho espelho, é o sangramento de cortes já cicatrizados — agora, outra vez abertos. Arrasta-me para longe do que, até então, parecia absurdo, do que jamais ousaria conceber o coração.
Agora, a solidão fez de mim seu porto. Um cais sombrio, de névoa densa, onde só aportam naufrágios. Uma solidão mórbida, opressiva, que cala o corpo e embacia a alma. Mergulho no deserto empoeirado do nosso quarto, como um arqueólogo desesperado, escavando lembranças. Imagino que te vou encontrar — iludo-me — pois a vida é um campo de sonhos, e nada mais... nada físico, só sonhos dentro de outros sonhos.
Ah, que saudade das emoções que sentimos! São doloridas lembranças. As doces palavras que trocávamos com inocência e verdade. Vejo-me agora, já pedindo perdão por minha insensatez, imaginando: como seria nossa vida? Lentas e longas caminhadas sob o crepúsculo, os silenciosos serões em que eu passava horas a escrever, e tu, com tuas mãos divinas, bordavas frutas, flores, querubins...
De quando em quando, te acercavas de mim para contar as pequenas descobertas das crianças, os gestos miúdos da rotina. E então, minha alma interrompia a escrita apenas para ver, por meio de tudo aquilo, o reflexo mais puro do que era ser feliz contigo.