Confidências V

Ah, se soubesses, nobre dama, o calor que se acende quando o gelo percorre os recônditos da minh'alma, calor este que tem como causa a resposta que deras às minhas cartas. Permaneces aí, senhorita, com este olhar que desliza sobre mim como uma carícia muda, tentando decifrar os contornos da minha alma sem que eu precise dizê-los. E eu? Em pensamento observo-te da penumbra, absorvendo teus gestos, a maneira como teus lábios hesitam entre o silêncio e o convite, como tua respiração se entrelaça ao ar morno da noite, criando um compasso secreto entre nós.

Ao caminhar até o aparador da sala, o som das madeiras frias rangendo sob meus pés evoca-me lembranças antigas.  Ah, se soubesses...
O tempo se dobra ao desejo e se torna cúmplice do jogo que acontece entre sombras e a penumbra. Sussurros de um passado distante ecoam no tapete felpudo, ao pé da lareira que cintila feito estrelas. Estende-se sobre o sofá Chesterfield do século 18, sobre a mesa de madeira crua, levemente envernizada, nas janelas e nas paredes do corredor onde ainda repousam tuas pinturas. No chão, o perfume espalha-se no ar como um encanto, envolvendo a noite e adensando a atmosfera. És como o próprio crepúsculo, senhorita, uma mistura indecifrável de luz e sombra, de promessas e mistérios. Vultos, como amantes indiscretos, agora murmuram sobre a bancada da cozinha, no batente da porta, em seguida na cama, enquanto meus pés adentram o quarto. O ranger das tábuas sob o peso dos meus sapatos dava vida a um ritmo mais íntimo e familiar, os corpos ainda dançam na minha memória, como uma fogueira que recusa se apagar, trazendo à mente o gemido do pé da cama, testemunha maliciosa de momentos íntimos. 

A noite os envolve, e a penumbra dança nas paredes, ora revelando, ora ocultando fragmentos de uma cena, testemunhando a dança ritmada de tuas vontades entrelaçadas, a sobreposição de silhuetas. Era a linguagem silenciosa dos corpos, a coreografia sutil das mãos que se encontravam, dos olhares que se devoravam. Naquele instante, roubado à voracidade do tempo, o quarto se tornava um palco de murmúrios e ecos, que, no entanto, carregavam o peso da intimidade e da entrega. E eu, teu espectador, feito de aço e fogo, sinto-me irremediavelmente atraído para esta órbita invisível que se cria ao redor. São como fantasmas de heras antigas, ecos sussurrados em meus pensamentos com uma voz moribunda. 

Ainda guardo segredos, senhorita, mas há verdades que não se expressam em palavras — apenas se tocam, se sentem, se revelam no calor de um instante roubado. E talvez seja isto o essencial: não o que escondo, mas o que, em silêncio, convido-te a descobrir.

— TO BE...

Confidências IV

Mas há um sutil encanto no que não se revela por completo, um fascínio inerente ao incompleto. Um homem desprovido de enigma assemelha-se a um livro de páginas em branco, uma estrela sem brilho, um inverno tépido, sem a mordida gélida que nos lembra a sua natureza; uma noite órfã de luar, sem a pálida poesia que acalma a escuridão. E eu, cuja natureza jamais se inclinou ao fácil, fui moldado pelas agruras da existência. Se em teu olhar reside a convicção de me conhecer por inteiro, resides em um equívoco encantador. O que percebes são meros fragmentos dispersos, ecos distorcidos em um espelho multifacetado, preservando minhas dualidades intrínsecas.

Contudo, há noites – ah, as noites! – tais como esta, em que me indago se seria mais fácil render-me ao anseio fugaz de permitir, por uma única vez, que alguém adentre os meus domínios recônditos e interditos. Mas o receio é grilhão de carne, um algoz implacável, que transforma nossa vulnerabilidade em dureza inflexível, condenando-nos à fria imobilidade escultural. E eu, sou cativo da minha própria cidadela interior, com baluartes erguidos ao longo de incontáveis silêncios e artifícios

Por isso, habito este entremeio de penumbra e o crepúsculo, entre a chama interior e mistérios velados, um enigma cuja resposta reside nos imprevisíveis caminhos do destino.

E tu, senhorita? O que vês quando me fitas com estes olhos que tentam perscrutar na profundidade da minh'alma? Serias tu uma sonhadora, uma buscadora de verdades em meio aos sonhos, ou apenas mais um olhar curioso espiando pelas frestas da minha noite, olhos que tateiam o indizível, buscas acaso um vislumbre da verdade, ou apenas te perdes, fascinada, na ilusão. Serias tu apenas mais uma estrela curiosa espiando por entre as brechas dos meus segredos noturnos, das minhas confidências?


— TO BE...

Vendaval

Carrego nos passos o vendaval que arranca raízes.

Velha Teia

A vida é tecelã de equívocos — e eu, seu artesão. Foi preciso todo esse tempo, e silêncio, para que eu enfim soubesse: éramos felizes, e um só, naquela alegria feita de coisas simples e eternas em sua sutileza. O medo, esse velho espelho, é o sangramento de cortes já cicatrizados — agora, outra vez abertos. Arrasta-me para longe do que, até então, parecia absurdo, do que jamais ousaria conceber o coração.

Agora, a solidão fez de mim seu porto. Um cais sombrio, de névoa densa, onde só aportam naufrágios. Uma solidão mórbida, opressiva, que cala o corpo e embacia a alma. Mergulho no deserto empoeirado do nosso quarto, como um arqueólogo desesperado, escavando lembranças. Imagino que te vou encontrar — iludo-me — pois a vida é um campo de sonhos, e nada mais... nada físico, só sonhos dentro de outros sonhos.

Ah, que saudade das emoções que sentimos! São doloridas lembranças. As doces palavras que trocávamos com inocência e verdade. Vejo-me agora, já pedindo perdão por minha insensatez, imaginando: como seria nossa vida? Lentas e longas caminhadas sob o crepúsculo, os silenciosos serões em que eu passava horas a escrever, e tu, com tuas mãos divinas, bordavas frutas, flores, querubins...

De quando em quando, te acercavas de mim para contar as pequenas descobertas das crianças, os gestos miúdos da rotina. E então, minha alma interrompia a escrita apenas para ver, por meio de tudo aquilo, o reflexo mais puro do que era ser feliz contigo.

Abismo

Se meus poemas fossem uma imagem.
Seria a de um escultor de mãos ensanguentadas, cansado, parado diante de uma estátua que finalmente abre os olhos.
E ela, trêmula, ainda sussurraria: — “Valeu?”

Prefácio dos Deuses

A dama nívea, sob umbra prece, ora.
Um cântico aos velhos Deuses
Sob o seu pranto, o legado umbra aflora,
com um apetite que não sacia
Consumida em pecado de outrora.

Da antiga profecia, eis a proa
O antigo Deus há de tomar forma
Da mácula de alvor que ecoa,
A vergonha de sua graça esquiva.
Ecoa das ruínas em língua arcaicozoa.

A seu reino a noite sempiterna ativa,
sob o véu de breu que tudo cobre.
Um ancestral tornar-se-á carne viva,
com cheiro acre de terra e sangue pobre.

A dama nívea, sob umbra prece, ora.
Cantiga dos Deuses celestiais.
No seu pranto, o legado umbra aflora,
Qual trevas no âmago dos olhos,
Torna turva a vista, qual névoa que devora.

Tal negror de seus olhos caíra,
Que lhe maculam o vestido alvíssimo.
A profecia dos Deuses já se cumprira.
Sob sua formosura, destoa o desespero.
O eco dos antigos hinos ressurgira.

Ainda que finde por amor infame,
um laço de dor e volúpia impura.
Ungirá com prece o berço do infante,
sob a névoa fria que perdura.

Embora as sombras o mundo sele,
Lavar-lhe a alma em sangue e culpa
Saudando o ser das rúnicas delecele. *
Vindo à terra a noite oculta.

Vagando de seu lar, tão apartada,
A dama nívea, jaz sob sangue e pecado.
Sua alma sobre o abismo jaz deitada.
Donzela nívea, sob umbra orando ao lado.

No encanto de seus olhos de cristal,
Ao menos santa sua esperança é alçada.
Cantiga dos Deuses de outrora, afinal.
Em seu último pranto, a escuridão selada.





* “delecele” = palavra criada com sonoridade de “deleite + cele”; pode ser interpretada como um encantamento selador ou um cântico oculto.

Canção do Bardo - O Paladino e o Reino do Norte I-XIV

Sou um cavaleiro negro andante
Por trevas, vales e tormenta forte.
Um Paladino, buscando adiante,
O Reino florido, o vale do norte.

Jazo exausto e oscilante,
Deito-me aos braços desta sorte.
Rompo o encanto — paladino errante,
Sob névoa, tenho visto a morte.

Eis-me aqui, presente,
Sob dia e noite, viajante.
Sigo firme e persistente,
Até alçar meu fado distante.

Planeta Parla(mente)

Prefácio:
Crônica rimada de um mundo cheio de ecos.
Planeta Parla(mente) não é um lugar distante no cosmos.
É aqui — bem debaixo dos nossos narizes, microfones e promessas de campanha.

Neste mundo em que se fala mais do que se escuta, onde discursos fazem piruetas e verdades são editadas antes da vírgula — nasce este "cordel urbano", esta crônica em rima: um espelho torto da política global e local, com o sarcasmo de quem já viu demasiada peça.  Aqui, o que se oferece são ecos: das cúpulas dos planetários, das propagandas sorridentes.
Circo sem risada, bandeiras sem vento — murchas como a esperança deste que vos dita — e palcos cheios de atores que esqueceram que o povo não é figurante.
Planeta Parla(mente) é um convite ao riso amargo, à reflexão rimada, ao incômodo necessário.
Porque, no fim das contas, quem aplaude ainda é o povo — entre a esperança e o desespero.

Leia com ironia.
Mas também com os olhos bem abertos.
Talvez você reconheça mais do que gostaria.

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Planeta Parla(mente):

No planeta parlamento,
de reunião (quase) todo dia:
debates sem sentido,
e o senso... virou folia.

Presidentes fazem selfie,
enquanto o povo nem protesta.
Gritam, a paz que se fie,
mas compram bomba na festa.

Tem ditador de gravata,
e palhaço sem graça.
Muita promessa e bravata,
mas vendem até a praça.

Na cúpula dos planetas,
enquanto a ONU serve café...
Quem manda são os patetas,
sentados no banco, em ré.

A Terra gira cansada,
com os ricos no controle,
um circo sem risada,
mas o importante é o rolê.

Apertos de mãos na telinha,
nos bastidores, facada.
A verdade nas entrelinhas...
É que não passa de cilada.

Na novela bucolista,
o pobre no sofá da sala.
A verdade dá entrevista...
Mas cortam antes da fala.

Política e o teatro amiúde,
com mil atos, sem roteiro.
No fim, quem sempre aplaude
é o povo... no desespero.


A Política

...onde a palavra é moeda falsa, e o povo, o troco esquecido. 

Silente

A fala é tempestade e o escutar, um jardim esquecido — onde floresce a ausência do sentido.